Um novo sentido de comunidade: partilha e parceria aberta.
O novo sentido de comunidade emerge num contexto marcado pela interdependência, pela conectividade digital e pela crise dos modelos comunitários fechados, hierárquicos e identitários. Em vez de comunidades baseadas na pertença fixa (“nós” vs. “eles”), este modelo funda-se em processos relacionais, dinâmicos e éticos.
1. Comunidade como prática de partilha (e não como posse)
A partilha deixa de ser apenas um gesto solidário pontual e passa a ser um princípio estruturante da comunidade:
- Partilha de saberes (conhecimento aberto, ciência aberta, OER)
- Partilha de experiências e narrativas
- Partilha de poder e decisão
A comunidade não se define pelo que cada um tem, mas pelo que cada um coloca em comum. Este entendimento aproxima-se da noção de commons (bens comuns), em que o valor é co-criado e mantido coletivamente.
A partilha é simultaneamente um ato cognitivo, político e ético.
2. Parceria aberta: cooperação não exclusiva nem instrumental
A parceria aberta rompe com:
- alianças fechadas,
- lógicas de pertença obrigatória,
- relações utilitaristas (“parcerias para cumprir objetivos”).
Em vez disso, propõe:
- relações permeáveis,
- colaboração temporária ou contínua,
- abertura à entrada e saída de participantes.
A comunidade passa a ser um ecossistema, não uma estrutura rígida. O valor está na capacidade de se reconfigurar, acolher contributos diversos e aprender com o inesperado.
3. Alternidade: o outro como condição da comunidade
O elemento mais profundo deste novo sentido comunitário é a alternidade (inspirada sobretudo em Emmanuel Levinas).
- O outro não é alguém a integrar ou assimilar.
- O outro é irredutível, diferente, e essa diferença não é um problema a resolver, mas uma condição ética da comunidade.
Estar “em permanência aberto à alternidade” significa:
- aceitar o dissenso,
- reconhecer assimetrias,
- escutar vozes marginais,
- suspender a tentação de consenso forçado.
A comunidade constrói-se na tensão, não na homogeneidade.
4. Comunidade como processo, não como estado
Neste modelo:
- a comunidade não está dada,
- ela acontece na interação,
- é continuamente negociada.
É uma comunidade:
- inacabada (always becoming),
- reflexiva,
- consciente do seu próprio poder e limites.
Este entendimento é particularmente relevante em:
- comunidades de aprendizagem online,
- redes académicas,
- movimentos sociais em rede,
- práticas de educação aberta e colaborativa.
5. Implicações éticas e políticas
Este novo sentido de comunidade implica:
- responsabilidade partilhada,
- ética do cuidado,
- gestão participativa,
- compromisso com a inclusão sem anular ou minimizar diferenças.
Não se trata de uma “comunidade confortável”, mas de "comunidade responsável".
Referências bibliográficas
Ética da alteridade
Levinas, E. (1980). Totalité et Infini. La Haye: Martinus Nijhoff.
Levinas, E. (1991). Entre nous: essais sur le penser-à-l’autre. Paris: Grasset.
Comunidade e política
Nancy, J.-L. (2000). La communauté désœuvrée. Paris: Christian Bourgois.
Esposito, R. (2010). Communitas: The Origin and Destiny of Community. Stanford University Press.
Cultura digital e partilha
Benkler, Y. (2006). The Wealth of Networks. Yale University Press.
Lessig, L. (2004). Free Culture. New York: Penguin.
Educação e aprendizagem em rede
Wenger, E. (1998). Communities of Practice. Cambridge University Press.
Siemens, G. (2005). Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age.
Deleuze, G. & Guattari, F. (1980). Mille Plateaux. Paris: Minuit.
Comuns e colaboração
Ostrom, E. (1990). Governing the Commons. Cambridge University Press.
Hardt, M. & Negri, A. (2009). Commonwealth. Harvard University Press
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